Dia desses, eu à toa e o mundo me aguardava
Mas de braços cruzados e punhos cerrados,
Eu era um pássaro a voar com apenas uma asa
Sob o denso precipício que se agigantava,
Eu tecia um vôo cego ante um horizonte trovoado,
Preenchido de montes, que cuspiam rubra lava
Ao longe, via o bando rumar a ermos desconhecidos
E eu, retardatário, ermitão e al(e)ijado,
Flanava irrequieto, a tiracolo do destino
Eis que de relance, o ribombar dos céus vacilou...
Uma fenda nas nuvens, rumo ao azul se abriu
E numa fração de tempo, o mundo silenciou
Um facho luminoso por aquele buraco se irradiou,
E de amarelo pálido se fez minha esperança...
De contornar a tempestade escura, rumo ao azul-calor
Voei ligeiro, até ser inundado por aquela cortina de luz
Súbito, o abismo se inverteu, e do susto não me recompus
Cegado por aquele brilho, já atordoado pela sua grandiosidade,
Bati minhas asas o quanto pude, sem perceber a verdade
Quanto mais subia, mais distante me encontrava do mundo
Para minha surpresa, o apego ao bando tornou-se agudo
A ponto de me fazer desejar voltar, e chamá-los num grito surdo
Vendo-os daquela distância, percebi-me impotente
Outro jeito não havia, era preciso imprimir velocidade
Se quisesse trazê-los àquele brilho sereno e quente
Olhei para trás, espírito aquebrantado e coração inconsolável
Parecia estranho que eu, o maior dos desajeitados,
Fosse contemplado com aquela visão sublime do inefável
Enquanto o bando lá se ia, alheio às visões de um retardatário,
Na mente soprava o desejo de abandoná-los e tornar à luz
Embora soubesse que tal pensamento iria contra o corolário
Restou-me, portanto, tentar quebrar a velocidade de cruzeiro,
Com a missão de mostrar que, no olho da desolação,
Um aleijado, por vezes, vale pelo conhecimento do grupo inteiro
21 de mai. de 2010
9 de mai. de 2010
Manhã saudosa de mim mesmo...
Manhã de sexta-feira ensolorada no outono, temperatura amena - com direito ao orvalho que se respira das árvores, naquela brisa tipicamente fresca - e um formoso céu risonho e límpido. Combinação que sempre me leva a um impulso quase irrefreável de pegar o carro e sair por aí, a esmo... de subir a serra, para ver o ritmo manso e sereno do campo, de paisagens em tom de verde escuro acizentado, das casinhas e algumas reses pastando ao longe... de ver os morros preservados de Mata Atlântica, que na altitude se miscigenam com os campos e pinheiros... de parar em uma dessas bancas que vendem produtos coloniais e comer, sem pressa, um simples pastel de carne com um copo de caldo de cana... De ir tão longe quanto minha sensação de inconsequência momentânea possa me levar. Talvez até o dinheiro acabar...
Observo as pessoas caminhando, o ritmo parece mais preguiçoso que o usual para os padrões sul-brasileiros. O sol rebate o friozinho, e parece que uma sensação de paz invade os motoristas, que se tornam também mais lentos e pacientes (ou talvez seja apenas eu). No tocador de CDs, Ben Harper destila canções semi e/ou acústicas, com aquela voz que traz paz ao coração em um dia que promete ser pura adrenalina, apesar de ser o último dia útil da semana. O aparelho, programado para tocar as músicas aleatoriamente, hoje parece gostar do Ben. Primeiro, "Beloved One", com aquela voz que é puro soul n' roll, e que já me faz pensar, pelo teor da letra, em levar uma garota comigo nessa aventura. Aí vem a clássica "Diamonds On The Inside", e minha alma automaticamente se transporta para o clipe, gravado no Havaí. Ao mesmo tempo, minha divagação também muda de cenário - mais especificamente, para a Guarda do Embaú e toda aquela composição agressivamente bela de rio, praia, montanha e mar, toda emoldurada por um céu azul claro, o qual, aos poucos, cede lugar para as estrelas, enquanto o oceano roça a areia naquela cadência tão propícia à contemplação...
Antes que eu perceba, já virei à esquerda ao invés da direita, rumo à autoestrada. Mas não vou muito longe. Apenas quinhentos metros depois, "acordo" em um cruzamento movimentado e mal planejado, daqueles que testam a paciência dos motoristas e suas respectivas buzinas. É a realidade colocando um dedo na minha orelha. Dou um longo suspiro, olho para o sol que começa a levantar-se, e penso comigo mesmo...por que não?
Por que não escapulir nesse dia de beleza ímpar? Por que não sair por aí dirigindo sem pressa, sem rumo, sem planejamento, sem responsabilidade?... É o último dia da semana mesmo...
Nesta hora, visualizo o diabinho do hedonismo no meu ombro da esquerda - o tridente dele, tentando me empurrar para a BR- 101. Do outro lado, o suposto anjo me lembra das responsabilidades, e que estão contando comigo na empresa. Lembra-me também de toda a quantidade de trabalho acumulado em cima da mesa e que precisa ser enfrentada, pois se assim permanecer, é o dobro na semana seguinte.
Impotente e resoluto, faço o retorno que reconduzir-me-á ao escritório. O diabinho tenta um golpe de misericórdia, com "Our Love" do Donavon Frankenreiter. Tarde demais...meu espírito aventureiro há tempos foi domesticado pelas experiências em sociedade e suas regras implícitas, que definem, entre outras coisas, o que é correto ou errado (ou seria o que é sucesso ou fracasso?). Quebrar estas correntes agora parece tão improvável quanto achar uma carta de baralho de copas negras. Mas o coração parece tingido de luto nesse momento, em que me vejo passível, agindo exatamente de acordo com o que está e sempre foi programado, enquanto o sol teima em brilhar, auspicioso e intenso como os meus devaneios.
"It's a...morning yearning, it's a morning yearning...", Ben canta.
27 de mar. de 2010
Last Call, Now Boarding
O sistema de comunicação interno anunciou alguma coisa, e ela retirou os fones de ouvido para escutar. Os embarques da madrugada são uma experiência ímpar. Você teme cochilar com medo de perder o voo, mas também não consegue se prender a uma leitura qualquer justamente porque dá sono. Por esta mesma razão, músicas muito lentas do Ipod tem que ser passadas criteriosamente. O saguão vazio também não corroborava - a ausência do burburinho do dia e de pessoas passando só poderia encurralá-la em suas próprias reflexões.
Durante aquelas mais de quatro horas sentada, rememorou vários episódios recentes. Partia para o desconhecido, o inédito que sempre adiara. Rompera com sua rotina, seu trabalho, amigos e até com algumas de suas idiossincrasias - não todas, posto que o ser humano é um bicho de hábitos bizarros definidos por métodos sofisticados, os quais, por alguma razão, nos impelem a sermos indubitavelmente o que somos.
Ainda sentia a garganta travada, pois caíra na besteira de olhar para trás antes de adentrar o saguão de embarque. Pensou que se esse sentimento fosse a prova de sua vontade, estaria realmente em apuros. Seus pais obviamente não aprovavam aquela aventura, e manifestaram toda a sua contrariedade como puderam. Inútil. Ela era emancipada, e com dinheiro suficiente para bancar a viagem. Ela, por sua vez, tentou demovê-los da intenção de acompanhá-la até o aeroporto, sem sucesso. Tinha certeza de que não seria uma boa, e agora via que tinha razão.
Ainda sentia a garganta travada, pois caíra na besteira de olhar para trás antes de adentrar o saguão de embarque. Pensou que se esse sentimento fosse a prova de sua vontade, estaria realmente em apuros. Seus pais obviamente não aprovavam aquela aventura, e manifestaram toda a sua contrariedade como puderam. Inútil. Ela era emancipada, e com dinheiro suficiente para bancar a viagem. Ela, por sua vez, tentou demovê-los da intenção de acompanhá-la até o aeroporto, sem sucesso. Tinha certeza de que não seria uma boa, e agora via que tinha razão.
Tentou pensar em outra coisa, mas nada tinha passado tanto pela cabeça quanto o "cara ou coroa" de sua vida...o trabalho a engolira, seus amigos se distanciaram e ela se sentia só em sua crise existencial. Para completar, o homem a quem entregara o coração simplesmente ignorara suas súplicas covardes, embora sinceras. Enquanto via todas as amigas se casando, constituindo família e levando uma vida regrada aos padrões "normais", ela não sabia se de fato as invejava, ou simplesmente se sentia aliviada por não ter sido empurrada para aquela via de duas pistas estreitas e sem acostamento...e a dúvida que sempre lhe assaltara desde adolescente começou a fazer um ruído insuportável dentro da cabeça, a ponto de deixá-la surda em relação a tudo.
Já não via sentido em seu trabalho, no segundo MBA que iniciara, muito menos na sua tragicômica vida pessoal. E a famosa pergunta, a qual provavelmente qualquer um já se fez na vida, continuava martelando. Quando saía para caminhar nas tardes de domingo, sempre refletia se a vida era apenas aquilo mesmo. Pensou que talvez fosse muita arrogância almejar para si algo fora do script da realidade que a cercava, mas "na real", ela se sentia como se estivesse presa dentro da caverna do mito de Platão - um apuro só dela.
Daí a razão da sua fuga. Um lugar longe de todos, um recomeço individual, talvez. Mas não era uma escapada de luxo, e sim uma missão. Um trabalho voluntário em um país subdesenvolvido - ou emergente, na linguagem politicamente correta - na África. Se não fosse para crescer pessoalmente, de que adiantaria, afinal, aquele "pseudo-sabático"? Lá, longe de tudo, de todos e de muitas de suas idiossincrasias e cicatrizes mal curadas, poderia talvez sentir-se útil - se possível, para muitas pessoas. Como já não se sentia necessária para ninguém dentro do seu círculo, o custo de oportunidade era um elemento técnico reconfortante na sua decisão. Mas...
Daí a razão da sua fuga. Um lugar longe de todos, um recomeço individual, talvez. Mas não era uma escapada de luxo, e sim uma missão. Um trabalho voluntário em um país subdesenvolvido - ou emergente, na linguagem politicamente correta - na África. Se não fosse para crescer pessoalmente, de que adiantaria, afinal, aquele "pseudo-sabático"? Lá, longe de tudo, de todos e de muitas de suas idiossincrasias e cicatrizes mal curadas, poderia talvez sentir-se útil - se possível, para muitas pessoas. Como já não se sentia necessária para ninguém dentro do seu círculo, o custo de oportunidade era um elemento técnico reconfortante na sua decisão. Mas...
E aquele "mas" continuava teimando em beliscá-la. Estava completamente só na sala de espera, e embora estivesse razoavelmente adaptada a isso, inundava-lhe um sentimento de abandono, tal qual uma criança esquecida pela mãe dentro de um supermercado. Ficou a pensar se não tinha feito aquela opção por ter entrado em um beco sem saída, no qual ela mesma construíra. Se assim fosse, por outro lado, também teria sido ainda mais difícil seguir o seu chamado interior. Por que deixara de falar com suas amigas e amigos? Era culpa exclusiva dela? E elas, por que não a procuravam mais? Ou esse distanciamento é uma coisa normal, dessas que vêm com a idade? Talvez as pessoas tivessem mudado, ou talvez fosse apenas ela...
E ele? Por que nunca respondera? Levara tanto tempo para abrir o coração que talvez o trem já estivesse saído da estação antes que ela pudesse chegar lá. Não era bem a recusa dele que a marcara, mas simplesmente a indiferença. Agora, ela partia para um país desconhecido, sem saber, de fato, o que ele pensava acerca dos seus sentimentos. Aquilo sim, a remoía intensamente, e já há algum tempo. E se tivessem ficado juntos? "Obviamente não estaria aqui" - refletiu. Ela o amava. Dissera isso a ele. Contudo, meditou que talvez ainda não soubesse, realmente, o que aquela palavra - pequena por fora e grande por dentro, como diria o anúncio do carro - de fato significasse. Não seria o amor próprio uma condição sine qua non para conseguir amar outra pessoa? Como uma pessoa infeliz como ela poderia mostrar aquele brilho nos olhos que arrebata e conquista o mundo?
Olhou em volta, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, olhando para baixo, enquanto sorria...Sim! No final das contas, tudo se resumia a isto, não? Buscar amor de uma nova maneira...mas...de que tipo? Pensou nos vários clichês que são ditos por aí. Não cairia nessa. Buscaria exatamente aquele amor que precisava para si. "Ao buscá-lo e moldá-lo para mim, provavelmente acabarei oferecendo outro espectro dele para as pessoas".
A esperança alojou-se em seu espírito. Levantou-se, já mais animada, procurando o cartão de embarque no bolso da jaqueta. Ao encaminhar-se à fila que já se formara ante o portão de entrada, olhou distraidamente para o corredor, cujo acesso restrito permitia apenas que passageiros com tickets e passaporte à mão entrassem. Um calafrio zapeou sua nuca. Parecia ter visto ele, de relance. Não podia acreditar! Forçou a vista... Não tinha certeza. Saiu da fila, na tentativa de enxergar mais de perto. Será??! Lembrou-se imediatamente dos filmes em que o "homem perfeito" irrompia o saguão atropelando tudo e todos, com um discurso magnificamente improvisado na ponta da língua, seguido do abraço e do beijo à la grand finale. Secretamente, naquele instante ela idealizou que isso pudesse ocorrer. A silhueta dele, ao longe, parecia realmente querer entrar de qualquer maneira. O coração rompeu aos saltos. Pensou em disparar pelo corredor, mas não estava segura o suficiente de que fosse ele realmente!
Quando por fim estava tomada a decisão de quebrar o recorde dos 400 metros rasos naquele saguão, no intervalo de um piscar de olhos, a funcionária da companhia aérea colocou a mão sobre o ombro dela:
- Moça, esta é a última chamada para embarque. Por favor, dirija-se ao portão.
E assim, o Brasil se distanciou...talvez ainda tentando recuperar o seu amor. A primeira lição surgira antes mesmo de decolar.
21 de mar. de 2010
O Enigma do meu Cachorro Vlad
Já comprei em duas livrarias virtuais em alguma época - ainda prefiro comprar em lojas físicas, porque gosto de folhear livros aleatoriamente, mas às vezes os preços falam mais alto. Você certamente já reparou que há sempre uma "nova onda" que toma conta tanto das vitrines das lojas físicas como das newsletters. Um livro se torna best-seller internacional, entra na lista dos mais vendidos em vários países e vira febre, a ponto de ser lançado, inclusive no cinema. Quando explodiu e se consolidou o fenômeno d' O Código Da Vinci, também surgiu uma enxurrada de títulos do tipo Destrinchando o Código Da Vinci; Por Trás do Código Da Vinci; A Verdade Sobre o Código Da Vinci e assim por diante.
A mesma coisa aconteceu com o famoso Marley e Eu - as gôndolas principais das livrarias subitamente estavam socadas de títulos que pegavam carona no tema, do tipo Meu inesquecível cachorro Tobi; Totó, o xodó; Precioso, um cão em nossas vidas...Ok, todos os títulos eu inventei agora, mas quando vejo o mesmo fenômeno se repetir com a série Crepúsculo, com os vampiros dando um "chega pra lá" na cachorrada, fico sempre me perguntando como surgem tão rapidamente obras cujos temas muitas vezes são resgatados do limbo.
Imagino que os editores mantenham um estoque de obras de autores ainda desconhecidos ou na obscuridade. Esses caras, os editores, devem receber muito material, abrangendo praticamente qualquer tema. Daí vai que muitos deles decerto são catalogados por assunto e colocados em uma espécie de zona fantasma, esperando pacientemente a chance de ser publicados caso surja uma nova febre, como é o atual caso da vampirada.
Fico matutando também se vale a pena publicar esses títulos que embarcam na fama dos best sellers. As pessoas querem mesmo ler tanta coisa sobre seres hematófagos e estórias comoventes sobre animais de estimação? A julgar pelo merchandising das lojas, parece que sim
2 de mar. de 2010
Jovens Empreendedores
Durante o trote, a rapidez com que alguns calouros conseguiram dinheiro para recuperar seus calçados junto a motoristas desavisados que passavam em frente à faculdade fez muito veterano pensar em trancar o curso e ganhar a vida como pedinte nas ruas da cidade. Afinal, quantos ali conseguem fazer R$ 25,00 por hora trabalhada em seus respectivos empregos?
13 de fev. de 2010
Surto poético
Os transeuntes mais experientes que reparassem naquele garoto a murmurar consigo mesmo com tanto cuidado e pausa certamente sabiam do que se tratava: invariavelmente lá se ia mais um apaixonado. Os idosos aposentados que se reuniam à orla para jogar bocha botavam reparo. Os tempos e as maneiras haviam por demais mudado, mas certas cenas sempre se repetiam. Garotos e garotas se apaixonavam, e muitos deles circulavam por aquele calçadão, pisando em nuvens - ou em ovos - e remoendo para si mesmos as agruras e felicidades de um novo amor.
Pois o rapaz seguia, aparentemente inabalável. Muitos pensamentos lhe vieram, decerto uma tentativa de largar um pouco do discurso que ele mesmo passara dias a escrever. Revirara poemas de autores que ele apenas conhecera superficialmente, nas aulas do cursinho - aliás, as velhas apostilas haviam quebrado um galhão nesse sentido. Vinícius de Moraes, Álvares Azevedo, Cecília Meireles, Drummond e mais um monte de letras de música que ele gostava.
Puxou mais uma vez do bolso as "palavras da salvação". Tudo na ponta da língua. Não se lembrava de ter escrito coisas tão íntimas. Pensou que talvez fosse melhor mandar a carta pra ela, mas quem hoje em dia manda cartas de amor? Mais do que o temor de não ser correspondido, tinha pavor de ser ridicularizado por alguém que - involuntariamente ou não - pudesse encontrar aquele pedaço de papel. Correio eletrônico então, nem pensar meu amigo!
No seu andar um tanto hesitante, ele se pegou a refletir sobre a situação toda. Um risco luminoso perpassou sua mente, enquanto o coração tamborilava numa cadência acelerada e ele suava, ansioso. Merda! Não queria transpirar, queria, obviamente, chegar sereno e com boa aparência, cuca fresca mesmo. Enquanto puxava um pouco as calças para cima, lançou os olhos sobre o mar e, de súbito, interrompeu a caminhada, chegando próximo à areia. Respirou fundo para se acalmar - outra técnica aprendida com professores de cursinho, para ser usada antes das provas de vestibular. O sol de fim de tarde iluminou suas faces, a barba mal feita e os olhos espremidos para conter os raios que os invadiam. Pensou que se tudo desse certo, ali seria o lugar onde estaria com ela, admirando aquele entardecer, que nunca lhe parecera tão hã...- sei lá - quanto naquele momento. Apurou os ouvidos, percebendo quanta vida gritava ao seu redor. Rodas de amigos nos bares, famílias sentadas em cadeiras de praia jogando conversa fora, casais levando seus cães para passear, até pássaros cantando, espalhados nas árvores...e ele nunca tinha reparado, no meio daquela mistureba de sons, odores e pessoas, de carros e música alta, que havia pássaros por todos os lados. Sentiu-se diferente. Sentiu-se bem. Sentiu que era um dia especial. Sentiu-se pronto. E botou rumo à empreitada novamente.
Mais quinze minutos de caminhada e chegara. Inspirou fundo mais uma vez, na tentativa de aplacar o nervosismo que o assaltava...O tamborilado cardíaco se convertera no surdo da bateria da Mocidade Independente. Era agora. O "dia D", a hora "H", o minuto "M". Fechou os olhos, repassando novamente as palavras que tanto ensaiara. "Seja minha, seja minha, seja minha..." - era um querer tanto que suas caretas chegaram a assustar algumas pessoas que ali passavam.
De súbito, percebeu o quanto estava parecendo ridículo ali, fantasiando aquele encontro. Não poderia tocar a campainha do apartamento dela. Teria que chamar pelo interfone. Ela poderia arrumar qualquer desculpa - o que ele não suportaria, obviamente - ou mesmo nem estar em casa. Olhou em volta. Parecia que todo mundo que por ali cruzava lançava-lhe um olhar de piedade.
Aquilo o enfureceu, e ele partiu para o ataque. Encostou-se ao portão e tocou o interfone. Estava decidido a não correr, como das outras oito vezes em que estivera ali... Permaneceu plantado, tremendo, a boca seca, mas firme e decidido. Sorte! Não fôra a mãe quem atendera! Era ela. O tom da voz era amistoso, e ela desceu, aparentemente despreocupada.
Quando a viu passar pelo portão sorrindo, olhos esverdeados e os cabelos soltos e entregues ao vento da orla, seus pensamentos, antes completamente centrados na sua missão, repentinamente chisparam tal qual um gato corre d'água. Pânico! Sentaram-se na escada da entrada do prédio. A conversa era rasa, sobre o tempo, festinhas, amigos e conhecidos. O tempo todo ele só pensava nos poemas, no texto que tantas vezes reescrevera. "Tio Vini, ajuda aqui, pelo amor de Deus!", ele suplicou em silêncio, justamente no instante em que ela comentava algo sobre como ele estava "meio estranho aquele dia". Aí ele não aguentou e soltou:
- Porra, guria! Não percebeu que eu...eu sou "afinzasso" de você? Eu simplesmente...não consigo tirar você da cabeça...eu..eu te amo, cacete!!
Lá do outro lado, Vinícius de Moraes, que a tudo assistia, pensou consigo mesmo que um bom uísque, que ele tanto apreciara enquanto esteve por aqui, também faria um sujeito apaixonado dizer aquilo sem precisar de tanta mesura. "Simples, mas eficaz", cutucou o maestro Jobim, que parara ao lado do amigo para também contemplar a cena, divertido.
Pois o rapaz seguia, aparentemente inabalável. Muitos pensamentos lhe vieram, decerto uma tentativa de largar um pouco do discurso que ele mesmo passara dias a escrever. Revirara poemas de autores que ele apenas conhecera superficialmente, nas aulas do cursinho - aliás, as velhas apostilas haviam quebrado um galhão nesse sentido. Vinícius de Moraes, Álvares Azevedo, Cecília Meireles, Drummond e mais um monte de letras de música que ele gostava.
Puxou mais uma vez do bolso as "palavras da salvação". Tudo na ponta da língua. Não se lembrava de ter escrito coisas tão íntimas. Pensou que talvez fosse melhor mandar a carta pra ela, mas quem hoje em dia manda cartas de amor? Mais do que o temor de não ser correspondido, tinha pavor de ser ridicularizado por alguém que - involuntariamente ou não - pudesse encontrar aquele pedaço de papel. Correio eletrônico então, nem pensar meu amigo!
No seu andar um tanto hesitante, ele se pegou a refletir sobre a situação toda. Um risco luminoso perpassou sua mente, enquanto o coração tamborilava numa cadência acelerada e ele suava, ansioso. Merda! Não queria transpirar, queria, obviamente, chegar sereno e com boa aparência, cuca fresca mesmo. Enquanto puxava um pouco as calças para cima, lançou os olhos sobre o mar e, de súbito, interrompeu a caminhada, chegando próximo à areia. Respirou fundo para se acalmar - outra técnica aprendida com professores de cursinho, para ser usada antes das provas de vestibular. O sol de fim de tarde iluminou suas faces, a barba mal feita e os olhos espremidos para conter os raios que os invadiam. Pensou que se tudo desse certo, ali seria o lugar onde estaria com ela, admirando aquele entardecer, que nunca lhe parecera tão hã...- sei lá - quanto naquele momento. Apurou os ouvidos, percebendo quanta vida gritava ao seu redor. Rodas de amigos nos bares, famílias sentadas em cadeiras de praia jogando conversa fora, casais levando seus cães para passear, até pássaros cantando, espalhados nas árvores...e ele nunca tinha reparado, no meio daquela mistureba de sons, odores e pessoas, de carros e música alta, que havia pássaros por todos os lados. Sentiu-se diferente. Sentiu-se bem. Sentiu que era um dia especial. Sentiu-se pronto. E botou rumo à empreitada novamente.
Mais quinze minutos de caminhada e chegara. Inspirou fundo mais uma vez, na tentativa de aplacar o nervosismo que o assaltava...O tamborilado cardíaco se convertera no surdo da bateria da Mocidade Independente. Era agora. O "dia D", a hora "H", o minuto "M". Fechou os olhos, repassando novamente as palavras que tanto ensaiara. "Seja minha, seja minha, seja minha..." - era um querer tanto que suas caretas chegaram a assustar algumas pessoas que ali passavam.
De súbito, percebeu o quanto estava parecendo ridículo ali, fantasiando aquele encontro. Não poderia tocar a campainha do apartamento dela. Teria que chamar pelo interfone. Ela poderia arrumar qualquer desculpa - o que ele não suportaria, obviamente - ou mesmo nem estar em casa. Olhou em volta. Parecia que todo mundo que por ali cruzava lançava-lhe um olhar de piedade.
Aquilo o enfureceu, e ele partiu para o ataque. Encostou-se ao portão e tocou o interfone. Estava decidido a não correr, como das outras oito vezes em que estivera ali... Permaneceu plantado, tremendo, a boca seca, mas firme e decidido. Sorte! Não fôra a mãe quem atendera! Era ela. O tom da voz era amistoso, e ela desceu, aparentemente despreocupada.
Quando a viu passar pelo portão sorrindo, olhos esverdeados e os cabelos soltos e entregues ao vento da orla, seus pensamentos, antes completamente centrados na sua missão, repentinamente chisparam tal qual um gato corre d'água. Pânico! Sentaram-se na escada da entrada do prédio. A conversa era rasa, sobre o tempo, festinhas, amigos e conhecidos. O tempo todo ele só pensava nos poemas, no texto que tantas vezes reescrevera. "Tio Vini, ajuda aqui, pelo amor de Deus!", ele suplicou em silêncio, justamente no instante em que ela comentava algo sobre como ele estava "meio estranho aquele dia". Aí ele não aguentou e soltou:
- Porra, guria! Não percebeu que eu...eu sou "afinzasso" de você? Eu simplesmente...não consigo tirar você da cabeça...eu..eu te amo, cacete!!
Lá do outro lado, Vinícius de Moraes, que a tudo assistia, pensou consigo mesmo que um bom uísque, que ele tanto apreciara enquanto esteve por aqui, também faria um sujeito apaixonado dizer aquilo sem precisar de tanta mesura. "Simples, mas eficaz", cutucou o maestro Jobim, que parara ao lado do amigo para também contemplar a cena, divertido.
11 de fev. de 2010
Lá e Cá Outra vez
Não, não é um plágio intencional do livro do famoso hobbit Bilbo Baggins. Decidi tornar a assinar um blog, mas tentarei evitar assuntos muito politicamente corretos, até porque esse tipo de conversa anda muito démodé nesse país...Prefiro, portanto, me aventurar em assuntos que não são muito do meu dia a dia, até como um exercício de sair um pouco da rotina - ouvi até que pequenas atitudes como essa previnem mal de Alzheimer. Whatever...Dentro desse esgoto de pensamentos que é a blogsfera, um excremento a mais não faz mal, não é mesmo? Ou faz?
Aproveito para agradecer ao Marcote e seu blog, cuja dedicação e talento me estimularam novamente a escrever, além de outros dos meus blogueiros favoritos [confira ao lado], os quais obviamente considero exceção à regra do esgoto...
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