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11 de jan. de 2011

Rastejo Socrático





Ah, todavia!
Entre o sim e o não, mais para não seria...
Um parágrafo novo, ao final de três pontos estaria.
Talvez nas entrelinhas, cercada de proselitismo,
Amalgamada entre metáforas - e falso niilismo!
Mal disfarçando o sumum egoísmo (e a descrença)
Eu a quero antes do ponto final da sentença.

Ah, portento!
Não garanta a ela a certeza deste momento!
Seja dúbia, assim como a direção do vento.
Num discorrer meticulosamente não deliberado,
Seduza a verdade, não lhe dê o real significado.
Se elogios ao seu ouvido ela soprar,
Mutile a vontade, faça-a rastejar.


Sim, entrementes!
Gira o mundo, ela que não me enfrente!
Quanto mais longo o discurso, menos eloquente...
A mim pouco importa, contanto que tarde.
Honestidade incomoda, endivida o covarde...
Cerceia o momento, abdica do sentimento!
E no entanto, é o meu único testamento...

21 de nov. de 2010

Posto Vespertino



Soturno, dentro de mim se esvai
Esgarça um pedaço de si...e segue
Olvidado não será, porque nunca me trai
Saiba, aqui e agora, a crua exegese


Não me invada, 
Tenho a fronte obtusa e cerrada
Não cometa seu destino, 
Pois que dele não participo
Minha mente é fraca,
E sim, pode ser subestimada
Pois não é dela que preciso,
Mas do furor inocente de menino


Ojeriza, não proceda em vã prolixidade
Aceite o milagre, beba a água da divindade
Ouça a alma pulsar, fluindo pelos meus poros
Chegue devagar - seja cometa, não meteoro


Ouça - meus gritos não têm eco
Veja - minhas chagas não se suturam
Semblante intermitente, desperto...
Pois na treva da dor, luzes me curam


Lembre-se, o zênite precede o ocaso,
Porém, não antes do solstício perfumado
Desista de entoar murmúrios a meu lado,
Pois se há flores, haverá vaso

24 de ago. de 2010

Elegia Urbana

Hoje, ao acaso, dei uma chance a mim mesmo...
E me flagrei sorrindo, escondido, de canto! 
Tá, confesso...tinha um estoque de alegria sem prazo de vencimento
Minha alma desvencilhou-se dos grilhões do calabouço
Meu corpo, tal qual rêmora, veio no embalo
Saí do prédio, vitaminado...
Pulando, num só pulo, os cinco degraus da entrada
Atravessei o portão de olhos fechados, como numa propaganda,
absorvendo o calor matutino que furava densas nuvens
Passei pela calçada, cumprimentando desconhecidos 
A resposta das pessoas não apenas me surpreendeu, 
como também me comoveu. 
Houve muita troca boa de energia 
- até abraços inesperados, quem diria! 
E o mais incrível é que ainda era começo de dia!


Decidi caminhar um pouco mais, até minha padaria favorita
aquela a qual não me é possível frequentar todos os dias 
Menos por dinheiro, mais por preguiça, eu diria
Lá chegando, encontrei amigos dos velhos tempos
Misto-quente, pingados, sucos e muita alegria!
Conversas sobre futebol, empregos e casamentos
Fechamos aquele café com um brinde, na velha sintonia
promessas de uma nova reunião e sinceros sentimentos...
E o mais incrível é que ainda era começo de dia!


Entrando no edifício onde trabalho,
dei um bom dia gritado, como há muito não fazia
Os transeuntes que ali passavam, o riso não puderam conter
Ao entrar no elevador, cumprimentei todas as pessoas
as quais por algum motivo - ou por motivo algum
eu nunca cumprimentava;
dentre elas, a linda ruiva do escritório do vigésimo andar
Restando apenas nós dois para desembarcar
Pela primeira vez, ousei lhe falar e - surpresa!
Sem perceber, da minha boca saiu um convite para jantar
Quando ela disse sim, eu mal pude acreditar!
Entrei no escritório tão leve, que podiam me ver flutuar
E o mais incrível é que o dia ainda estava a começar! 


Animado com tudo que me acontecera até ali,
Decidi realizar tarefas sob corajosa iniciativa
Mandei para o inferno a rotina dos relatórios
Tentei ver as coisas sob outra perspectiva
Iniciei a revolução, simplesmente mudando a mesa de lado
Desengavetei projetos e os despejei à mesa do chefe
O medo da rejeição, desta vez ficou calado
Com um olhar de agradável surpresa, 
meu chefe prometeu analisar
A resposta veio, antes do expediente se encerrar
O chefe gostara, e muito: "Vamos implementar!
A partir de amanhã, há uma equipe para você coordenar!"
Saí do trabalho, 
a adrenalina era tanta que não deu pra esperar
Desci as escadas correndo, desde o vigésimo quinto andar
E o mais incrível: a linda ruiva estava lá embaixo, a me esperar


Pensei em levá-la ao mesmo restaurante
Onde levava as mulheres com quem saía
Era uma solução segura - e menos estressante 
Mas ela era especial, também era especial o dia
Decidi mais uma vez correr o risco
Levei-a ao meu canto favorito,
numa praia distante do centro, e perto do Divino
Um bar à beira da praia, simples e aconchegante
Uma mesa a dois, eu tão nervoso quanto um iniciante
Em uma troca de olhares, percebi que havia muito adiante
Por fim, o manto escuro da noite,
o crepúsculo agasalhou junto ao luar
Sob um teto estrelado, 
eu pedi à mesma lua para não ver a noite findar


Depois da refeição, eu a levei para um passeio
Pés desnudos, mãos unidas e pegadas na areia
Pairou uma afinidade intensa, do calibre dos meus devaneios
O primeiro beijo que lhe dei, foi de olhos abertos
Pois queria gravar os mínimos pormenores 
daquele instante tão meu (tão nosso)
A claridade deitou, intensa, naqueles olhos azuis
O planeta girou mais rápido, 
quando deixei minhas melhores palavras
escapulirem para dentro dos seus ouvidos...
Aquele ataque de sinceridade acendeu o rastilho,
do sentimento ímpio para um roçar desmedido
E antes que pretendesse acordar, o sol já surgia, tímido


Saudação calorosa na linha do horizonte, 
mente trôpega em busca de mais...
Se minha noite perfeita tivesse mais horas, 
mais e mais eu a preencheria 
Uma prancha de surfe no oceano, sob o holofote da lua cheia
Uma praça do alto da colina, um cochilo debaixo da palmeira
Preso em minhas divagações, não a percebi alheia...
Enquanto caminhávamos pelas pedras do cantão,
antes que pudesse perceber, ela puxou uma correia
Enlaçou-a em meu pescoço, puxou-me para perto do coração
Num abraço mortal, eu era uma mosca na teia:
"O amor nunca vai ao âmago, por onde campeia
seu rastro se esvai em promessas e desilusão
O tolo que nele se apega, segue o canto da sereia
A água o acolhe, a espuma o cega, o sal o incendeia"


Lá, onde as gaivotas se aninham para observar
Senti um canivete cravado em minha jugular
O mergulho final, golpe da misericórdia, 
Fim da linha, pomo da discórdia
Um último beijo, ela podia ir embora
pois que havia um mundo de oportunidades afora
Daquela visão turva, o horizonte avistei
O escarlate do céu, lentamente ia sendo suplantado 
"Vermelho como os cabelos dela", lembrei
E o mais incrível é que a noite mal havia terminado


*este poema foi inspirado na obra do mestre do rock macambúzio, Nick Cave

18 de jul. de 2010

Sum Rises...



Socially promised
Happiness ends there
But we never realized
What's on to fear

Currents shift 
Even under the sea
Shadows behind the mist
Fill my thoughts about thee

Sometimes I claim for the sun
Perhaps I need warm
My poetry sounds like a pun
My boat sinks under the storm

So here I am
Turning and turning again
Trying to understand the sum
Love plus apathy gives you pain


21 de mai. de 2010

Sobre voo...sobre vida...

Dia desses, eu à toa e o mundo me aguardava
Mas de braços cruzados e punhos cerrados,
Eu era um pássaro a voar com apenas uma asa


Sob o denso precipício que se agigantava,
Eu tecia um vôo cego ante um horizonte trovoado,
Preenchido de montes, que cuspiam rubra lava


Ao longe, via o bando rumar a ermos desconhecidos
E eu, retardatário, ermitão e al(e)ijado,
Flanava irrequieto, a tiracolo do destino


Eis que de relance, o ribombar dos céus vacilou...
Uma fenda nas nuvens, rumo ao azul se abriu
E numa fração de tempo, o mundo silenciou


Um facho luminoso por aquele buraco se irradiou,
E de amarelo pálido se fez minha esperança...
De contornar a tempestade escura, rumo ao azul-calor


Voei ligeiro, até ser inundado por aquela cortina de luz
Súbito, o abismo se inverteu, e do susto não me recompus
Cegado por aquele brilho, já atordoado pela sua grandiosidade,
Bati minhas asas o quanto pude, sem perceber a verdade


Quanto mais subia, mais distante me encontrava do mundo
Para minha surpresa, o apego ao bando tornou-se agudo
A ponto de me fazer desejar voltar, e chamá-los num grito surdo


Vendo-os daquela distância, percebi-me impotente
Outro jeito não havia, era preciso imprimir velocidade
Se quisesse trazê-los àquele brilho sereno e quente


Olhei para trás, espírito aquebrantado e coração inconsolável
Parecia estranho que eu, o maior dos desajeitados,
Fosse contemplado com aquela visão sublime do inefável


Enquanto o bando lá se ia, alheio às visões de um retardatário,
Na mente soprava o desejo de abandoná-los e tornar à luz
Embora soubesse que tal pensamento iria contra o corolário


Restou-me, portanto, tentar quebrar a velocidade de cruzeiro,
Com a missão de mostrar que, no olho da desolação,
Um aleijado, por vezes, vale pelo conhecimento do grupo inteiro