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28 de nov. de 2010

Futuro do presente x Futuro do pretérito


- Ah, aí está você de novo...não pense que não sei que me observa há dias.
- Tenho estado ao seu lado já há algum tempo.
- Por que não a toma de uma vez??!
- Não cabe a mim decidir.
- Mas gosta de me ver aqui!...moribundo, esquálido...fraco demais...
- Sim, não nego...mas não faz parte da minha natureza, ao contrário do que os homens pensam. Tendo a ser neutro em todas estas ocasiões, apenas aguardando ordens. Observo, ou melhor, contemplo, porque sempre me faz relembrar a lição máter que os homens esquecem no decorrer de suas vidas.
- Hmm...e qual seria?
- A de que vocês são milagres vivos - energia abundante, sempre num ciclo latente . Seres capazes de proceder uma revolução benéfica para si mesmos. Todavia, sempre vejo como reverberam até o último instante e, ironicamente, apenas nos minutos finais parecem atingir a compreensão.
- Compreensão de quê?!
- De que até o último suspiro, é possível extrair alguma coisa. Mais do que isso: por vezes, vocês aprendem mais nos útimos momentos do que em toda a sua jornada. Neste mundo, a dor anda de mãos dadas com a sabedoria. Se pulsa vida por suas veias, procure entender, como eu, que cada respiração dada pode ser um ofício que se depreende da mais pura arte da reflexão.
- Parece-me irônico que só reflitamos sobre isso no ocaso de nossas vidas...
- Sim. Posso sentir sua mente fervilhando milhares de ideias. Sobre seu passado e futuro. Já o presente...você parece pensar pouco no presente.
- Isso causa estranheza a você?'
- Ao contrário. É normal, em momentos como este. Você, como muitos que visitei, está com medo...medo do desconhecido, do que vem pela frente; medo das tolices que cometeu. E no entanto, apenas o seu pensamento no agora poderia libertá-lo.
- Rá! Se isso fosse verdade, não estaria recebendo sua visita há dias!!
- Está vendo a questão por apenas um ângulo. Acabo de lhe dizer que momentos finais são preciosos. O grito pela perpetuidade nos faz desejar o que não pudemos alcançar, de uma maneira ou de outra. Todas as células do seu corpo neste momento gritam, se debatem, lutam para seguir adiante. Sempre há possibilidade de se fazer algo grandioso, intenso...até que os olhos se fechem, até o final. A mente quer isso - está consciente (talvez pela primeira vez), desperta, mas desta vez é o corpo quem está fraco. Durante toda a sua vida, foi justamente o contrário.
- Bingo, maldita!! Que diabos espera que eu faça, atado aqui neste leito?? Como posso me concentrar no presente, se não consigo sequer comer sem ajuda??! Já percebeu como defeco aqui, deitado? É apenas outra ironia, assim como você! Por que não posso me ir? Esqueça as ordens!! Estou há quase três meses agonizando! Para quê, eu me pergunto?
- Já disse o porquê... a dor é sua professora, e no entanto, você a encara como se um aluno rebelde fosse, não como um discípulo que deseja superar seu mestre. Olhe ao lado...há várias outras pessoas sofrendo tanto ou mais do que você. Cada uma delas tem o poder de escolher ser um bom ou mau aluno.
- Que diferença isso faz?! No fim, o resultado é o mesmo!!
- Faz toda a diferença, ainda mais perto do fim. Há duas questões que você deveria se fazer: qual fim? E quando será o fim? De qualquer maneira, você sabe que estou aqui. E no entanto, há um "senão". Ele repousa, essencialmente, no fato de suportar o que for preciso para libertar-se dos ditames do que foi e do que poderia ser. Tal decisão acontece aqui, neste momento...na fronteira e no giro dos minutos e segundos e o que eles deixarão escritos para o futuro.
- Supondo que esteja certa...mesmo assim, você continuaria a me visitar?
- Sim, mas seria diferente.
- Diferente como?
- Não importa quanto tempo eu levasse para visitá-lo novamente, você certamente me receberia de braços abertos e com um sorriso, pra variar.
- ...E...o q-que...o que... eu encontraria?... No fim?
- Paz.

27 de jul. de 2010

Sobre Abutres e Cães


Eu sou, ironicamente, o lado frágil desta questão...mais precisamente, o fio condutor de dois lados que não têm lado, tal qual as moléculas dispersas na ebulição. Nossa missão é acomodar interesses em um ambiente cuja definição "inferno" se assemelha a um filme noir macabro... A paleta de sentimentos e adjetivos à minha disposição parece insuficiente para registrá-lo em toda sua amplitude... Lembro-me de ter lido, em algum lugar, uma reflexão acerca do fato de que muitos conceitos não podem ser compreendidos pelo ser humano, dada a limitação de sua linguagem. Aparentemente, nossa pobreza de vocabulário é o resultado de uma condição intelectual e moral insuficientemente evoluída, e lamento que isto soe verdadeiro... Se a mim fosse dado o poder de expandir o alcance das palavras, torná-las tão ou mais letais do que meu fuzil, este breve relato me tornaria um herói de guerra.

Acabo de voltar de uma patrulha de rotina. Nossa base é um oásis no deserto caótico que se instaurou na capital. O presidente foi assassinado em circunstâncias misteriosas, pretexto mais do que suficiente para acender o barril de pólvora desta pseudo-democracia. Rebeldes tomaram o poder, reivindicando uma suposta supremacia de uma etnia que se dizia oprimida pelo governo anterior. O resultado? Um banquete permanente para os abutres, sempre rodopiando pelo céu, mesmo uma semana após encerrada a guerra - um massacre que se converteu em genocídio e resultou na morte de aproximadamente um milhão de pessoas, a maioria a golpes de facão.

Eu sei, parece estranho que ao tentar descrever tudo que vi - e principalmente após minha divagação acerca da pobreza de linguagem para tentar definir o indefinível - simplesmente me aproprie de uma metáfora tão rasa. Pois será esta a visão a qual forçarei minhas sinapses, sempre que o pesadelo do terror vier a me atormentar nos dias que se seguirão. Nada mais do que uma reação mecânica de preservação da minha sanidade mental, pois quando aqui cheguei, meus olhos se recusavam a ver as centenas de cadáveres que se empilhavam nas ruas, todos os dias. Instintivamente, eu erguia minha visão para o alto e, invariavelmente, lá estavam as aves carniceiras em seu ritual de preparação - autênticas e soberanas comensais da morte.

Hoje, compreendo porque dizem que o primeiro sentimento de reação à dor é a negação. Enquanto pudemos ignorar o caos ao nosso redor, os dias eram suportáveis. Agora, na minha companhia, somos quatro soldados tomando medicamentos tarja preta. Um paliativo que se tornou precipitadamente imperativo, depois que um companheiro tentou dar cabo da própria vida com granadas, as quais felizmente não detonaram - estavam “ocas”, e nem mesmo os oficiais mais graduados sabiam disso.

Os pesadelos não vão embora. Todos buscam, no trabalho braçal, uma terapia para manter a cabeça ocupada e deixar o corpo tão fatigado que não permita sequer uma lembrança do que temos testemunhado, quando cerrarmos os olhos à noite. O problema é que o sono por aqui nunca é reparador. Quando não são ecos de metralhadoras ou bombas, são os caminhões trazendo feridos, principalmente mutilados. Penso nas crianças órfãs que chegam. Elas não choram nem gritam como os adultos, principalmente as mulheres. Por trás da crosta da aparência catatônica, elas estão mortas por dentro. Viram familiares, amigos e vizinhos serem fatiados com requintes de crueldade ímpar. Umas poucas, já recuperadas, passeiam pelas enfermarias fazendo absolutamente nada, olhando para o nada. São como zumbis, vagando sem propósito e atrapalhando a circulação dos médicos.

Talvez eu também esteja me tornando um morto-vivo. Justamente por temer perder minha capacidade de indignação e não deixar que esse cenário de loucura se torne trivial, hoje finalmente baixei a guarda e forcei-me a observar, sem desvios, o saldo final do conflito.

Nosso trabalho é proteger os comboios carregados com alimentos, roupas e remédio não apenas dos últimos focos esparsos de resistência rebeldes; mas da própria população. A fome os torna irracionais, e o resultado são caminhões alvejados e cargas saqueadas, principalmente nos subúrbios.

Estivemos no centro da cidade hoje. Os corpos estão espalhados aleatoriamente, e os sobreviventes parecem pouco propensos a organizar sepultamentos. Esta tarefa sobra para os militares (eu me incluo entre eles) e voluntários. Um fotógrafo nos acompanha, disparando sua máquina para todos os lados...nas calçadas, nas placas de estabelecimentos comerciais destruídos, nas janelas, árvores e, como pudemos constatar mais tarde, também no rio Nyabarongo. Cadáveres e mais cadáveres. As mãos começam a formigar, gélidas. O coração dá socos na cavidade torácica. Faço uma pausa para mais uma dose de Rivotril. Prosseguimos novamente, sempre atrás do comboio.

Ao virarmos em uma rua, somos obrigados a descer e retirar os corpos das ruas para os veículos passarem. Pego uma máscara. Começo retirando dois homens, o primeiro de estatura mediana. O segundo, muito mais alto e pesado, me obriga a pedir ajuda. Coloco-os encostados nos escombros do que, suponho, seria um bar ou mercearia. Ali mesmo, estatelada de bruços, está uma menina de mais ou menos 9 anos de idade. Tem os membros amputados. Provavelmente, sangrou até morrer. Cometo o erro de virá-la e percebo que o homicídio teve pitadas de sadismo. A pequena tem, pela ordem, a orelha direita, a mão esquerda e o pé direito amputados, numa “lógica” seqüencial macambúzia. Minha visão fica turva... Impulsos elétricos disparam, e sinto as veias da minha cabeça nitidamente latejarem...o ímpeto de fúria assassina que me acomete só é obliterado ao perceber as náuseas do fotógrafo, às minhas costas. Levanto-me para ajudá-lo a se recompor e percebo, do outro lado da calçada, o motivo da ojeriza. Ali se encontra o corpo de uma mulher, cujas mãos foram cortadas (mas não decepadas). As marcas da violência sexual estão bem visíveis.

Durante a fase mais crítica da guerra, levavam à nossa enfermaria mulheres que haviam sido sodomizadas por até dez homens, muitas vezes simultaneamente. Chegavam urrando de dor, com hemorragias internas e os médicos utilizavam todo o estoque de morfina à disposição. Cirurgias de reconstrução vaginal eram rotineiras. Vi tudo isso com meus próprios olhos, e achei que estivesse me acostumando. No entanto, o quadro desta vez é indubitavelmente mais chocante. A moça, não mais que 25 anos, foi violentada à maneira típica que descrevi, com um detalhe: estava grávida. Aparentemente, os assassinos abriram-lhe a barriga, deixando um bebê natimorto preso às entranhas, pela placenta. Olho para os lados. Toda a companhia tenta demonstrar firmeza, mas os movimentos de maxilares protuberantes e intermitentes denunciando um choro travado nos traem. Os olhos ficam úmidos. Ninguém diz uma palavra.

Quando terminamos de desimpedir a via, escuto um ganido dentro de uma casa bombardeada. Dois soldados também. Dou o sinal e recebo a resposta de que terei cobertura. Entro nos escombros e eles me seguem. Depois da cena da mulher grávida, não há mais pico de adrenalina, e eu me sinto anestesiado. Acendo uma lanterna para afastar a penumbra e percebo, ao fundo do casebre, um pequeno corpo inerte, coberto de poeira, e um cachorro ao seu lado, deitado.

O animal levanta a cabeça e, ao ver minha aproximação, rosna ameaçadoramente. Meu colega atrás de mim faz a mira. Eu o impeço no ato. Chego mais perto, e ofereço a minha mão para que ele possa cheirá-la - nunca tive medo de cachorros. Ele parece compreender meu sinal de trégua, permitindo minha aproximação. Faço um afago e ele abaixa a cabeça, sem desgrudar os olhos de mim. Percebo que ele guarda uma criança, mas esta não foi amputada. Provavelmente morreu pela bomba. Tomo o pulso dela. Morta, realmente. Dou o sinal ao meu companheiro, que dá meia-volta. Tomo o cachorro em meus braços, sem que ele proteste, e o carrego para fora. Está ferido em uma das patas, mas não parece grave. Ignoro o aviso do sargento, de que o regulamento não permite animais de estimação na base. A presença do cãozinho é um sopro de vida na missão, e a resistência do oficial responsável se encerra definitivamente quando a companhia o cerca e os voluntários o mimam, oferecendo água e um pouco de comida.

Quando os motores ligam e prosseguimos, o animal imediatamente se põe a latir e ganir, olhando para os escombros que guardava há minutos. Ignoramos, mas o desespero aumenta e ele se torna irrequieto e verdadeiramente hostil. A lealdade daquele vira-lata comove a todos, e sem qualquer objeção, voltamos para buscar o corpo da criança que estava sob sua tutela e a levamos para a base, para ser enterrado.

Depois de pedir a um dos médicos que examine a pata do novo mascote, vou direto para o chuveiro, o meu local preferido de relaxamento desde que fui impedido de consumir álcool por conta dos antidepressivos...Por mais que esfregue, parece que o sangue não sai das minhas mãos...tento amenizar, cortando as unhas no limite do possível, mas sempre que olho novamente, elas me parecem rubras. Não sei como explicar, mas também parece não haver perfume que me livre do cheiro putrefato e carregado das ruas de Kigali, imersas em sangue, cinzas e lágrimas. Aparentemente, meu olfato desenvolveu uma percepção sensorial indelével; correlacionada aos pesadelos que vivi nestes últimos meses.

À noite, com o cachorro afundado no meu colo após o pequeno funeral organizado para seu ex-dono anônimo (no qual ele fez questão de participar), mal consigo participar da acalorada discussão que se formou ao meu redor, entre soldados, voluntários e ruandeses, sobre o nome que irá batizá-lo. A lembrança do pior dia da campanha me faz olhar para o animalzinho, aparentemente tão frágil, e que tantas lições nos ensinou hoje...lealdade...coragem...amor incondicional, seja lá qual fosse a etnia ou condição social e intelectual da criança que ele tão zelosamente guardava...Sinto calafrios ao me dar conta de que ele desperta, em mim, a  repugnante vergonha de ser quem - ou o quê - sou. Neste momento, eu me pego a invejar e admirar o cãozinho ruandês, tal qual um aprendiz o faz com seu mestre. “Renuncio à minha condição de homo sapiens, quero ser um cachorro”.

Levanto-me em seguida, deixando-o com uma das enfermeiras que ali estão, e me despeço para o ritual noturno diário, de remédios e choros escondidos debaixo do travesseiro. Eu apenas rezo para não sonhar... nem me tornar um morto-vivo.

9 de mai. de 2010

Manhã saudosa de mim mesmo...





Manhã de sexta-feira ensolorada no outono, temperatura amena - com direito ao orvalho que se respira das árvores, naquela brisa tipicamente fresca - e um formoso céu risonho e límpido. Combinação que sempre me leva a um impulso quase irrefreável de pegar o carro e sair por aí, a esmo... de subir a serra, para ver o ritmo manso e sereno do campo, de paisagens em tom de verde escuro acizentado, das casinhas e algumas reses pastando ao longe... de ver os morros preservados de Mata Atlântica, que na altitude se miscigenam com os campos e pinheiros... de parar em uma dessas bancas que vendem produtos coloniais e comer, sem pressa, um simples pastel de carne com um copo de caldo de cana... De ir tão longe quanto minha sensação de inconsequência momentânea possa me levar. Talvez até o dinheiro acabar... 


Observo as pessoas caminhando, o ritmo parece mais preguiçoso que o usual para os padrões sul-brasileiros. O sol rebate o friozinho, e parece que uma sensação de paz invade os motoristas, que se tornam também mais lentos e pacientes (ou talvez seja apenas eu). No tocador de CDs, Ben Harper destila canções semi e/ou acústicas, com aquela voz que traz paz ao coração em um dia que promete ser pura adrenalina, apesar de ser o último dia útil da semana. O aparelho, programado para tocar as músicas aleatoriamente, hoje parece gostar do Ben. Primeiro, "Beloved One", com aquela voz que é puro soul n' roll, e que já me faz pensar, pelo teor da letra, em levar uma garota comigo nessa aventura. Aí vem a clássica "Diamonds On The Inside", e minha alma automaticamente se transporta para o clipe, gravado no Havaí. Ao mesmo tempo, minha divagação também muda de cenário - mais especificamente, para a Guarda do Embaú e toda aquela composição agressivamente bela de rio, praia, montanha e mar, toda emoldurada por um céu azul claro, o qual, aos poucos, cede lugar para as estrelas, enquanto o oceano roça a areia naquela cadência tão propícia à contemplação... 

Antes que eu perceba, já virei à esquerda ao invés da direita, rumo à autoestrada. Mas não vou muito longe. Apenas quinhentos metros depois, "acordo" em um cruzamento movimentado e mal planejado, daqueles que testam a paciência dos motoristas e suas respectivas buzinas. É a realidade colocando um dedo na minha orelha. Dou um longo suspiro, olho para o sol que começa a levantar-se, e penso comigo mesmo...por que não?

Por que não escapulir nesse dia de beleza ímpar? Por que não sair por aí dirigindo sem pressa, sem rumo, sem planejamento, sem responsabilidade?... É o último dia da semana mesmo... 

Nesta hora, visualizo o diabinho do hedonismo no meu ombro da esquerda - o tridente dele, tentando me empurrar para a BR- 101. Do outro lado, o suposto anjo me lembra das responsabilidades, e que estão contando comigo na empresa. Lembra-me também de toda a quantidade de trabalho acumulado em cima da mesa e que precisa ser enfrentada, pois se assim permanecer, é o dobro na semana seguinte.

Impotente e resoluto, faço o retorno que reconduzir-me-á ao escritório. O diabinho tenta um golpe de misericórdia, com "Our Love" do Donavon Frankenreiter. Tarde demais...meu espírito aventureiro há tempos foi domesticado pelas experiências em sociedade e suas regras implícitas, que definem, entre outras coisas, o que é correto ou errado (ou seria o que é sucesso ou fracasso?). Quebrar estas correntes agora parece tão improvável quanto achar uma carta de baralho de copas negras. Mas o coração parece tingido de luto nesse momento, em que me vejo passível, agindo exatamente de acordo com o que está e sempre foi programado, enquanto o sol teima em brilhar, auspicioso e intenso como os meus devaneios.

"It's a...morning yearning, it's a morning yearning...", Ben canta.

27 de mar. de 2010

Last Call, Now Boarding

O sistema de comunicação interno anunciou alguma coisa, e ela retirou os fones de ouvido para escutar. Os embarques da madrugada são uma experiência ímpar. Você teme cochilar com medo de perder o voo, mas também não consegue se prender a uma leitura qualquer justamente porque dá sono. Por esta mesma razão, músicas muito lentas do Ipod tem que ser passadas criteriosamente. O saguão vazio também não corroborava - a ausência do burburinho do dia e de pessoas passando só poderia encurralá-la em suas próprias reflexões.

Durante aquelas mais de quatro horas sentada, rememorou vários episódios recentes. Partia para o desconhecido, o inédito que sempre adiara. Rompera com sua rotina, seu trabalho, amigos e até com algumas de suas idiossincrasias - não todas, posto que o ser humano é um bicho de hábitos bizarros definidos por métodos sofisticados, os quais, por alguma razão, nos impelem a sermos indubitavelmente o que somos. 


Ainda sentia a garganta travada, pois caíra na besteira de olhar para trás antes de adentrar o saguão de embarque. Pensou que se esse sentimento fosse a prova de sua vontade, estaria realmente em apuros. Seus pais obviamente não aprovavam aquela aventura, e manifestaram toda a sua contrariedade como puderam. Inútil. Ela era emancipada, e com dinheiro suficiente para bancar a viagem. Ela, por sua vez, tentou demovê-los da intenção de acompanhá-la até o aeroporto, sem sucesso. Tinha certeza de que não seria uma boa, e agora via que tinha razão.

Tentou pensar em outra coisa, mas nada tinha passado tanto pela cabeça quanto o "cara ou coroa" de sua vida...o trabalho a engolira, seus amigos se distanciaram e ela se sentia só em sua crise existencial. Para completar, o homem a quem entregara o coração simplesmente ignorara suas súplicas covardes, embora sinceras. Enquanto via todas as amigas se casando, constituindo família e levando uma vida regrada aos padrões "normais", ela não sabia se de fato as invejava, ou simplesmente se sentia aliviada por não ter sido empurrada para aquela via de duas pistas estreitas e sem acostamento...e a dúvida que sempre lhe assaltara desde adolescente começou a fazer um ruído insuportável dentro da cabeça, a ponto de deixá-la surda em relação a tudo.

Já não via sentido em seu trabalho, no segundo MBA que iniciara, muito menos na sua tragicômica vida pessoal. E a famosa pergunta, a qual provavelmente qualquer um já se fez na vida, continuava martelando. Quando saía para caminhar nas tardes de domingo, sempre refletia se a vida era apenas aquilo mesmo. Pensou que talvez fosse muita arrogância almejar para si algo fora do script da realidade que a cercava, mas "na real", ela se sentia como se estivesse presa dentro da caverna do mito de Platão - um apuro só dela. 


Daí a razão da sua fuga. Um lugar longe de todos, um recomeço individual, talvez. Mas não era uma escapada de luxo, e sim uma missão. Um trabalho voluntário em um país subdesenvolvido - ou emergente, na linguagem politicamente correta - na África. Se não fosse para crescer pessoalmente, de que adiantaria, afinal, aquele "pseudo-sabático"? Lá, longe de tudo, de todos e de muitas de suas idiossincrasias e cicatrizes mal curadas, poderia talvez sentir-se útil - se possível, para muitas pessoas. Como já não se sentia necessária para ninguém dentro do seu círculo, o custo de oportunidade era um elemento técnico reconfortante na sua decisão. Mas...

E aquele "mas" continuava teimando em beliscá-la. Estava completamente só na sala de espera, e embora estivesse razoavelmente adaptada a isso, inundava-lhe um sentimento de abandono, tal qual uma criança esquecida pela mãe dentro de um supermercado. Ficou a pensar se não tinha feito aquela opção por ter entrado em um beco sem saída, no qual ela mesma construíra. Se assim fosse, por outro lado, também teria sido ainda mais difícil seguir o seu chamado interior. Por que deixara de falar com suas amigas e amigos? Era culpa exclusiva dela? E elas, por que não a procuravam mais? Ou esse distanciamento é uma coisa normal, dessas que vêm com a idade? Talvez as pessoas tivessem mudado, ou talvez fosse apenas ela...

E ele? Por que nunca respondera? Levara tanto tempo para abrir o coração que talvez o trem já estivesse saído da estação antes que ela pudesse chegar lá. Não era bem a recusa dele que a marcara, mas simplesmente a indiferença. Agora, ela partia para um país desconhecido, sem saber, de fato, o que ele pensava acerca dos seus sentimentos. Aquilo sim, a remoía intensamente, e já há algum tempo. E se tivessem ficado juntos? "Obviamente não estaria aqui" - refletiu. Ela o amava. Dissera isso a ele. Contudo, meditou que talvez ainda não soubesse, realmente, o que aquela palavra - pequena por fora e grande por dentro, como diria o anúncio do carro - de fato significasse. Não seria o amor próprio uma condição sine qua non para conseguir amar outra pessoa? Como uma pessoa infeliz como ela poderia mostrar aquele brilho nos olhos que arrebata e conquista o mundo?

Olhou em volta, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, olhando para baixo, enquanto sorria...Sim! No final das contas, tudo se resumia a isto, não? Buscar amor de uma nova maneira...mas...de que tipo? Pensou nos vários clichês que são ditos por aí. Não cairia nessa. Buscaria exatamente aquele amor que precisava para si. "Ao buscá-lo e moldá-lo para mim, provavelmente acabarei oferecendo outro espectro dele para as pessoas". 

A esperança alojou-se em seu espírito. Levantou-se, já mais animada, procurando o cartão de embarque no bolso da jaqueta. Ao encaminhar-se à fila que já se formara ante o portão de entrada, olhou distraidamente para o corredor, cujo acesso restrito permitia apenas que passageiros com tickets e passaporte à mão entrassem. Um calafrio zapeou sua nuca. Parecia ter visto ele, de relance. Não podia acreditar! Forçou a vista... Não tinha certeza. Saiu da fila, na tentativa de enxergar mais de perto. Será??! Lembrou-se imediatamente dos filmes em que o "homem perfeito" irrompia o saguão atropelando tudo e todos, com um discurso magnificamente improvisado na ponta da língua, seguido do abraço e do beijo à la grand finale. Secretamente, naquele instante ela idealizou que isso pudesse ocorrer. A silhueta dele, ao longe, parecia realmente querer entrar de qualquer maneira. O coração rompeu aos saltos. Pensou em disparar pelo corredor, mas não estava segura o suficiente de que fosse ele realmente!

Quando por fim estava tomada a decisão de quebrar o recorde dos 400 metros rasos naquele saguão, no intervalo de um piscar de olhos, a funcionária da companhia aérea colocou a mão sobre o ombro dela:

- Moça, esta é a última chamada para embarque. Por favor, dirija-se ao portão.

E assim, o Brasil se distanciou...talvez ainda tentando recuperar o seu amor. A primeira lição surgira antes mesmo de decolar.

13 de fev. de 2010

Surto poético

Os transeuntes mais experientes que reparassem naquele garoto a murmurar consigo mesmo com tanto cuidado e pausa certamente sabiam do que se tratava: invariavelmente lá se ia mais um apaixonado. Os idosos aposentados que se reuniam à orla para jogar bocha botavam reparo. Os tempos e as maneiras haviam por demais mudado, mas certas cenas sempre se repetiam. Garotos e garotas se apaixonavam, e muitos deles circulavam por aquele calçadão, pisando em nuvens - ou em ovos - e remoendo para si mesmos as agruras e felicidades de um novo amor.


Pois o rapaz seguia, aparentemente inabalável. Muitos pensamentos lhe vieram, decerto uma tentativa de largar um pouco do discurso que ele mesmo passara dias a escrever. Revirara poemas de autores que ele apenas conhecera superficialmente, nas aulas do cursinho - aliás, as velhas apostilas haviam quebrado um galhão nesse sentido. Vinícius de Moraes, Álvares Azevedo, Cecília Meireles, Drummond e mais um monte de letras de música que ele gostava.


Puxou mais uma vez do bolso as "palavras da salvação". Tudo na ponta da língua. Não se lembrava de ter escrito coisas tão íntimas. Pensou que talvez fosse melhor mandar a carta pra ela, mas quem hoje em dia manda cartas de amor? Mais do que o temor de não ser correspondido, tinha pavor de ser ridicularizado por alguém que - involuntariamente ou não - pudesse encontrar aquele pedaço de papel. Correio eletrônico então, nem pensar meu amigo!


No seu andar um tanto hesitante, ele se pegou a refletir sobre a situação toda. Um risco luminoso perpassou sua mente, enquanto o coração tamborilava numa cadência acelerada e ele suava, ansioso. Merda! Não queria transpirar, queria, obviamente, chegar sereno e com boa aparência, cuca fresca mesmo. Enquanto puxava um pouco as calças para cima, lançou os olhos sobre o mar e, de súbito, interrompeu a caminhada, chegando próximo à areia. Respirou fundo para se acalmar - outra técnica aprendida com professores de cursinho, para ser usada antes das provas de vestibular. O sol de fim de tarde iluminou suas faces, a barba mal feita e os olhos espremidos para conter os raios que os invadiam. Pensou que se tudo desse certo, ali seria o lugar onde estaria com ela, admirando aquele entardecer, que nunca lhe parecera tão hã...- sei lá - quanto naquele momento. Apurou os ouvidos, percebendo quanta vida gritava ao seu redor. Rodas de amigos nos bares, famílias sentadas em cadeiras de praia jogando conversa fora, casais levando seus cães para passear, até pássaros cantando, espalhados nas árvores...e ele nunca tinha reparado, no meio daquela mistureba de sons, odores e pessoas, de carros e música alta, que havia pássaros por todos os lados. Sentiu-se diferente. Sentiu-se bem. Sentiu que era um dia especial. Sentiu-se pronto. E botou rumo à empreitada novamente.


Mais quinze minutos de caminhada e chegara. Inspirou fundo mais uma vez, na tentativa de aplacar o nervosismo que o assaltava...O tamborilado cardíaco se convertera no surdo da bateria da Mocidade Independente. Era agora. O "dia D", a hora "H", o minuto "M". Fechou os olhos, repassando novamente as palavras que tanto ensaiara. "Seja minha, seja minha, seja minha..." - era um querer tanto que suas caretas chegaram a assustar algumas pessoas que ali passavam. 


De súbito, percebeu o quanto estava parecendo ridículo ali, fantasiando aquele encontro. Não poderia tocar a campainha do apartamento dela. Teria que chamar pelo interfone. Ela poderia arrumar qualquer desculpa - o que ele não suportaria, obviamente - ou mesmo nem estar em casa. Olhou em volta.   Parecia que todo mundo que por ali cruzava lançava-lhe um olhar de piedade.


Aquilo o enfureceu, e ele partiu para o ataque. Encostou-se ao portão e tocou o interfone. Estava decidido a não correr, como das outras oito vezes em que estivera ali... Permaneceu plantado, tremendo, a boca seca, mas firme e decidido. Sorte! Não fôra a mãe quem atendera! Era ela. O tom da voz era amistoso, e ela desceu, aparentemente despreocupada.


Quando a viu passar pelo portão sorrindo, olhos esverdeados e os cabelos soltos e entregues ao vento da orla, seus pensamentos, antes completamente centrados na sua missão, repentinamente chisparam tal qual um gato corre d'água. Pânico! Sentaram-se na escada da entrada do prédio. A conversa era rasa, sobre o tempo, festinhas, amigos e conhecidos. O tempo todo ele só pensava nos poemas, no texto que tantas vezes reescrevera. "Tio Vini, ajuda aqui, pelo amor de Deus!", ele suplicou em silêncio, justamente no instante em que ela comentava algo sobre como ele estava "meio estranho aquele dia". Aí ele não aguentou e soltou:


- Porra, guria! Não percebeu que eu...eu sou "afinzasso" de você? Eu simplesmente...não consigo tirar você da cabeça...eu..eu te amo, cacete!!


Lá do outro lado, Vinícius de Moraes, que a tudo assistia, pensou consigo mesmo que um bom uísque, que ele tanto apreciara enquanto esteve por aqui, também faria um sujeito apaixonado dizer aquilo sem precisar de tanta mesura. "Simples, mas eficaz", cutucou o maestro Jobim, que parara ao lado do amigo para também contemplar a cena, divertido.